"Diálogo Pictórico" - óleo e acrílica sobre tela - Foto: Roberto Fernandes
O gosto agora pelas palavras difíceis. Mil significados.
Após tanto silêncio.
Palavras (as dela?) que vagam pela casa e dormem comigo.
Embora o barulho lá de fora também fale, a preferência me
cabe ao que elas calam.
E podem chegar dúvidas, e alguma confusão que tragam.
O dicionário, ao lado esquerdo de minha cabeça, como um
mapa, uma caixa onde se guarda as coisas.
Uma caixa cheia de palavras difíceis...
Cada gesto – repentino? - como o gesticular de uma
pantera. Há em mim as marcas dela...
Incessante fuga... Querendo ir e querendo ficar... Sem
parar nunca.
A boca seca ligeiro, a respiração se arrasta, o coração
dispara às pressas.
O que há de oco dentro do meu corpo vira arrepios.
Sob a forma de metais modernos, que me sustentam.
Num mundo apertado por linhas, meu tato ...As minhas
fugas em espaços dilaceradamente abertos.
Em meio a toda imponência de rituais qualificantes. Nos
trânsitos do Cosmos.
Meus olhos agora aparentemente distraídos.
Colocados ao longe.
Meus olhares que não querem mais ficar. Que já não
encontram... Olhos tirados de cena...Onde estão os olhos dela ?
Cada verso escrito sempre num começo de noite - mas cheio
de luz.
Enquanto meio mundo vê telenovelas. Vida de esquecimentos...
O tempo moderno das maquinações.
A dor do mundo é um lixo que não se recicla – por quê?
Nem ao menos espero a resposta.
Queria amá-la sem a
companhia de demasiadas palavras, só isso.
Cada verso aqui arranha – chega e mutila.
Mutiladas, as palavras saem.
E ainda tem as outras vezes... As que não posso dizer...Como
quero e sinto...
(Roberto Fernandes)