Tudo deixa de ser um problema arrasador depois que se aceita a própria loucura. Pois a realidade é feita de infindáveis paralelas.
Com um sorriso disponível se chega a qualquer lugar. Metade do mundo está nas ruas agora, nesse momento.
Tudo o que entendemos não podemos contar. Vemos coisas que outros não veem.
Olhe bem fundo dentro dos olhos, diante de um espelho, e siga. É preciso correr, às vezes, em beiras de abismos. Metade do mundo é puro sentimento.
Esse tempo que o relógio conta é pura invenção. Não há velocidade na luz. O desvario e a sabedoria vivem sob o mesmo teto há muito tempo. A dualidade é cega. A identidade, mutante.
E quem pode apontar para um louco na multidão? Metade do mundo é um mistério. E as notícias que compramos, cada vez mais cruéis.
Comer deveria ser simples e, as fugas, racionais. As perguntas são imensos monumentos. Metade do mundo é perdição.
Muitos nomes pulsam escondidos em fundos de gavetas. Muitos amigos vagam, falam sozinhos, sem qualquer remédio.
A realidade é inconstante todos os dias. Desconexões abruptas. Muros se levantam e são derrubados. Sonhos, predições, e a necessidade de uma rotina.
Ria mais uma vez da insensatez de tudo em volta e beba seu café pensando em sorvetes, em uma bonita praça perto do mar.
A convivência com a pressa espreme cada vez mais a vida. Comprime pessoas – encaixotando, deletando. O ciclo do mundo.
Enquanto as portas se fecham, os pássaros estão cantando. Um martelar sem fim mora dentro de uma cabeça presa a este mundo.
A solidão é um quadro abstrato, também é, a janela de um metrô. A falta de carinho perturba e dá medo se acostumar.
Somos todos faltosos e cheios de imperfeições. E o mundo não se espicha nunca nessa overdose de gente. Metade do mundo é uma morte lenta de pesadelos medonhos.
Há séculos se mexendo dentro de nossas cabeças ocas, além de xampus, cremes e perfumes. Metade do mundo está no vento.
Ponderações, meditações. Escreva em todo lugar possível – com a paixão de um grafiteiro.
É, assim, com uma sensação de incrível aperto no peito, que se perde o medo da loucura, olhando na luz dos olhos. Metade do mundo é negridão.
Aquietado pelo silêncio, durma então com os anjos. Metade do mundo nunca dorme, vive num frenesi de consumo e apelos infernais.
(Roberto Fernandes)
"ÁFRICA"
Técnica mista sobre papel
Foto: Roberto Fernandes