segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Os dias vindouros

                                                                Foto: Roberto Fernandes 

A vida segue, mas nada sabemos sobre os dias vindouros. O mundo é lindo em sua manifestação natural – o mistério das águas, o cheiro da terra, os vários tons possíveis do verde, os ventos, as cores que nos despertam as mais diversas emoções, os aromas doces possíveis... tudo um convite à eternidade, se fosse possível um acordo com o “para sempre”. Temos um fim aqui, sabemos disso desde o começo e é justamente esse o nosso maior esquecimento. Um dia já não estamos mais.

Temos um final aqui – eis a nossa finalidade, passarmos por vales desse mistério todo com a aceitação do efêmero aqui, essa condição estarrecedora. Estamos de passagem e isso nos comove, ao mesmo tempo que aterroriza. Nos beatifica, e emudece,  se deixarmos nos desprender nesse abstrato.

O que chamamos de fim - com cara de bezerro desmamado, com aquela necessidade medieval de um final feliz – é uma longa avenida de mutações. Não sei em que estágio estamos nessa escala de mudanças milenares.

Somos, a maioria, uns tontos. Estamos perdidos entre desejos, ilusões, disputas, erros, acertos, necessidades, vaidades traídas e corridas atrás de ventos. Uma ofegante corrida ao meio dia. Nunca seremos super  – sinto dizer, com alguma tristeza.

Somos breves, enrugaremos, não seremos nunca entendidos, e seremos, no final das contas, descartáveis, a matéria orgânica um dia não nos mais comporta. Tem sido assim à nossa volta.

O que poderá ficar, ficará como sendo uma espécie de semente que se deixa, de possibilidades vivas que se possam disseminar e algumas acontecerem de serem as sementes verdadeiras que salvem.

Ficará a semente de bondade, de aceitação mesmo da dor. Ficará o que conseguirmos plantar sem medo e sem vaidades nos ideais dos que virão. Para que eles tenham o direito de não sofrer mais do que nós. A esperança deve sorrir nos rostos das crianças hoje.

Um ofício de brasas esse nosso, de manter a presença do fogo e da luz em nosso âmago. De não desistir do progresso da vida ao nosso redor, e dentro de cada um.

Eu, já meio caminho andado pela vida que me passou veloz, acho que falhei, me perdi. Despreparado para a sordidez mundana, fracassei - mas tentei desde o começo fazer algo especial. Fazer de toda essa brevidade uma porta para o próximo mundo ou próxima vida -  se nada vier depois não importa, não houve uma segunda intenção.

É o meu compromisso secreto com Deus, em mim. Serei divino e por isso sofrerei caninamente. As pequenas maldades são bem aceitas hoje em dia. Eu já conheço as beiras do mundo.

 No silêncio de minha solidão há um som que acredito ser a voz de alguma alma minha.

Apesar de grandes decepções com o amor, amo. Como um agricultor ama a terra em que padece, e que o alimenta - que sabe que a terra nunca será sua, que a terra um dia irá lhe tragar e apagar suas lembranças.
Amo como uma semente se entrega ao solo, enquanto me pergunto se sementes morrem ao tocar o solo - ou se estavam mortas antes e só começam a viver ao roçar o solo, quando lançadas.

Sorrio então, não estamos sós neste mistério. Devemos ter as mãos mais ávidas doravante.





                                                               Foto: Roberto Fernandes