Detalhe da pintura "Encontro Furtivo" - Roberto Fernandes
Ando com a cabeça nas nuvens, esses dias.
Caminhando a esmo, olhar vesgo.
Avançando com esforço de um cego, esses dias...
Os passos meticulosamente calculados nas calçadas cheias de
buracos. Mas há pássaros.
Guiados por que ventos, os sabiás?
Sou como um ser degolado, nesses dias.
Minha pressa só aumenta as impossibilidades.
Taquicardia, fotofobia, azia, disenteria... (Não gosto de
sentir isto)
Só pelo sentimento de utilidade agita-se o mundo.
O oco deve ser ocupado.
Grito de dentro de um espelho. Grito e sorrio.
Vou pintando as pitangas...
Um sentimento de culpa - o mundo.
A luz entra pela janela. Os espelhos ficam adormecidos,
então, não me diga nada.
Não me deixe vivo entre seus dentes, onde estão as minhas
mordidinhas?
As besteiras que penso... - um pouco de bom-senso disfarçaria
esse sentimento de desamparo...
Foi lá no Largo do Amparo, que ironia, que eu fui cuidar de
te amar.
Como cheira a pitanga...
Caminho. Procurando vestígios...
Meu reflexo em tudo que lembro.
Como um tolo tenho vivido.
Esses dias desajeitados.
Cheio de enganos, orgulhos feridos.
Cheio de importâncias passageiras, poeiras.
Carbono pesando no ar.
Fomes insaciáveis pelo mundo.
Como um tolo tenho vivido...Esses dias...
Sem nenhum tato com a sabedoria.
Mascando feridas.
(“PEQUENA CONFISSÃO DE UM TOLO” – Roberto Fernandes)