terça-feira, 29 de maio de 2012

O fruto do tempo...

                                                                       "O fruto" - pastel seco sobre papel

















Aos gregos e troianos apresento o meu cavalo de pau.
Aos socráticos, por favor, menos cicuta.
Lembro em um filme antigo, Roma ardendo em chamas. Um corre-corre desgraçado.
Grandes colunas caindo sobre cabeças apressadas.
Já tentaram queimar tanta gente em fogueiras...
E a Terra quase nunca foi redonda.
Não sou besta desde os cachos de Voltaire.
Na perdição do tempo tem sempre um inferno.

Não esqueço as mãos de Da Vinci.
As pedras de Rodin.
O impulsivo Van Gogh e as tempestades angustiantes de sua solidão.
Há um grande vazio que protege os versos. Há também as musas.
Meu coração vai fazer cem anos por causa de uma princesa com voz fina de menina.

(Tempo – Roberto Fernandes)

quinta-feira, 24 de maio de 2012

                                                         "Ranhuras em círculos" (web-art) - Roberto Fernandes

















Engulo o espelho e me calo.
Tenho as dores dos que não sabem falar.
(Um céu que me abriga vai me povoando)
Não sei aonde ir com essa noite.
Num ermo, olho para os lados.
Havia um tempo em que oferecia a outra face. Era em um mundo de mentiras.
Fazia amor por entre fendas de arquitetura moderna – perdendo a ternura em cada gozo, entre os prédios inescrutáveis.
Aprendi a acomodar lágrimas pelo chão do quarto, entre outras tantas coisas.
Já morri de meu próprio medo, mas, agora, quem pode me matar?

(Um inverno – Roberto Fernandes)










sábado, 19 de maio de 2012

PELO MUNDO

                                                                                         DETALHE DE UMA PINTURA















Poder virar gota d’água
E escorrer por um íngreme qualquer do mundo
Em silêncio
Sair
Sem melancolia
Sem culpa
Remorso
Despercebido
Em direção qualquer
Escorrendo
Vontade viva
De não ser um vazio maior

Roberto Fernandes   
        

terça-feira, 15 de maio de 2012

SEMENTES

                                                                          "Sementes" (web-art) - Roberto Fernandes













Te traduzir em poemas...
E é disso que tens medo
Pois és tão grande, tão bela, que não caberás em nenhum poema
Pantera...
Caberás sim em campos abertos e mais selvagens do que em espaço entre linhas retas e paralelas
Linhas que prendem e fixam
Onde se apoiam letras e lembranças
Anjo...
Caberás apenas num céu solto e de azul eterno
Um céu livre de pintores e poetas – esses tolos com suas chatices sobre a tal arte de ser nada
Mulher bela...
Não caberás nem em vãos espelhos que torturam o tempo
Caberás talvez no meu carinho e nos beijos que cuido para te dar
Caberás livre de qualquer explicação nesse amor
Que nunca foi meu ou seu
 Mas foi você quem o colocou no meu lugar, na minha vida


(Minha namorada tem luz no nome – Roberto Fernandes)


terça-feira, 8 de maio de 2012

Um deus revolve o caos

                                                                             "Um deus revolve o caos" - Foto: Roberto Fernandes



















Meu rosto roto pelo tempo
Avesso de um oposto a mim imposto
Do que havia e não havia
Em tudo ignorado
Meu rosto

Via as distâncias que me levavam
Por linhas não desenhadas
Meu riso frouxo e largo eu seguia
Um olhar emotivo sempre foi a sua bandeira definível de rosto

Em flor de pele refiz o caminho
Tudo me enternece agora
Choro com muita facilidade – nada tenho para esconder
Aprendi a dureza dos muros
Com os saltos e pulos convivo

Em meus buracos lunares guardo lembranças distantes
São os meus abrigos nesse rosto que me sobra
Os sorrisos de amigos se parecem com uma rua
Sou de uma lua crescente, caminho sem medos


Minha voz sem cordas e rouca
Amiga de canções
Ainda fala de amor
Minha voz quer ser meu rosto agora – pode? -, como se fosse a voz de um louco...

(Com um amor de dantes - Roberto Fernandes)


domingo, 6 de maio de 2012

Sentir a magia...

                                                "Peixe" (web-art) - Foto :Roberto Fernandes









Vejo magias no dia. Nas primeiras horas, mais graciosas.  
Pegadas deixadas na areia da praia.
Pés fortes que conduziram alguns risos.
E beijos que ainda estalam à luz do sol.
O dourado luminoso que desenha o ar é colocado sobre minha cabeça.
E entra em mim um simples pensamento. Sou um com Deus.
Água do mar é gelada.
Ventos e tormentos são passageiros.
A respiração é tudo que tenho. O começo do mundo.
Flutuar no mar, junto com os peixes... As correntes marítimas trazem coisas de longe. Todo o ser no sentimento da água. Na água é possível voar.
Sinto a magia dos acontecimentos eclodindo. A comunicação entre todos os seres. Tudo explicado pelo mar, através de sua mágica divina.

(Vejo magias no dia – Roberto Fernandes)

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Algum sentido...

                                                                                                  "Flor amarela" - Foto: Roberto Fernandes

















Fico sem rumo certas horas
Nesse amor sei de quase tudo
E me agarro a esse tudo que só eu penso existir
Loucura ou candidez?
Forçado a ser forte como gente que nunca morre...
Com seu riso na memória – as horas voam
Não esqueci o perfume da rosa
Conheço os jardins
Será que é muito tarde?
Por que tudo está tão quieto?
Estou há séculos conversando com os ventos
Tenho já montanhas aqui de tanto falar
Talvez um dia algum segredo se revele por entre as coisas ditas ou não ditas

(Sem sentido certas horas – Roberto Fernandes)