quinta-feira, 23 de agosto de 2012

DEDICO O DIA...

                                             "Água de cor" - óleo sobre eucatex - Foto:Roberto Fernandes






Dedico esse dia ao melhor de mim. Ao que é mais quieto, o que procura paz. O lugar, tanto faz. Sou de muitos lugares. Quem tem raiz é plantinha. Dedico ao dia tudo que possa ser superável. O meu amável. Aos olhares que vão em frente, a olhar sem fim. Olhos orientais, entrando todos os dias no dia-após-dia, sem cansaço. Dedico esse dia aos jardins. Nada de solenidades ou celebridades. Dedico o dia aos que estão em mim. Que são muitos. Dedico-me ao dia.


sábado, 11 de agosto de 2012

SOBRE ELA, AS PALAVRAS...

                                 "Diálogo Pictórico" - óleo e acrílica sobre tela - Foto: Roberto Fernandes








O gosto agora pelas palavras difíceis. Mil significados. Após tanto silêncio.
Palavras (as dela?) que vagam pela casa e dormem comigo.
Embora o barulho lá de fora também fale, a preferência me cabe ao que elas calam.
E podem chegar dúvidas, e alguma confusão que tragam.
O dicionário, ao lado esquerdo de minha cabeça, como um mapa, uma caixa onde se guarda as coisas.
Uma caixa cheia de palavras difíceis...
Cada gesto – repentino? - como o gesticular de uma pantera. Há em mim as marcas dela...
Incessante fuga... Querendo ir e querendo ficar... Sem parar nunca.
A boca seca ligeiro, a respiração se arrasta, o coração dispara às pressas.
O que há de oco dentro do meu corpo vira arrepios.
Sob a forma de metais modernos, que me sustentam.
Num mundo apertado por linhas, meu tato ...As minhas fugas em espaços dilaceradamente abertos.
Em meio a toda imponência de rituais qualificantes. Nos trânsitos do Cosmos.
Meus olhos agora aparentemente distraídos.
Colocados ao longe.
Meus olhares que não querem mais ficar. Que já não encontram... Olhos tirados de cena...Onde estão os olhos dela ?

Cada verso escrito sempre num começo de noite - mas cheio de luz.
Enquanto meio mundo vê telenovelas. Vida de esquecimentos... O tempo moderno das maquinações.
A dor do mundo é um lixo que não se recicla – por quê?
Nem ao menos espero a resposta.
Queria amá-la sem a companhia de demasiadas palavras, só isso.
Cada verso aqui arranha – chega e mutila.
Mutiladas, as palavras saem.
E ainda tem as outras vezes... As que não posso dizer...Como quero e sinto...

(Roberto Fernandes)

sábado, 4 de agosto de 2012

                                                                                             Foto: Roberto Fernandes









Ela se levantou... Depois de muito tempo, sem nunca ter relógios...
Seu olhar esbravejando contra o mundo – tinha também lágrimas de sentimentos intensos.
Seu sorriso luminoso em órbitas cheias de visões... Seus olhos indescritíveis.
Em frente ao espelho.
Eu a fitando, absorto - agitando asas...

(Se escondeu com sua dor. Quem não faria isso?)

Seus olhos turvos de dúvidas, como em dias de óculos escuros - talvez se lembrasse disso.
Seus olhares, como mares. Mais misterioso ainda. Eu me perdendo neles...
Um desconhecido - ali no quarto cheio de livros.
Ela rondando o quarto agora...  Espreitas e explicações...  (várias pontes sendo criadas sobre o rio, paralelas ao mar.)
No espelho, escrito em letras vermelhas: “Acredito”. Com aquele batom novo e marcante.

(Roberto Fernandes)