quarta-feira, 31 de julho de 2013

AZUL

                                                 "Azul" - Técnica mista sobre tela - Roberto Fernandes





Ele, com seu pijama cheio de manchas diárias, enterra a cabeça dentro da televisão.
Se esconde letárgico, ausente, risonho. Num enredo de esquecimento. Num desfile de produtos.


Ele, que se desprendeu da vida. (Que vida!)
Com seus grandes pés incansáveis e cheios de fé. Acima do solo.
Naquelas sandálias azuis de atravessar desertos azuis.

Ali, naquela colorida ilha de impulsos elétricos.
Como a conceber alguma cura. Ou esperando alguma resposta de sua mente vazia, despreocupada...


(“Sobre ele e suas sandálias azuis” – Roberto Fernandes)

sábado, 20 de julho de 2013

EM DIAS ASSIM...

                                                             "Relógios Nada Podem" - Foto: Roberto Fernandes








Dias em que os relógios nada podem. Dias cheios de cafeína. Prematuros, quando a luz é ainda ausência sobre o dicionário.
Dias que parecem infinitos – pela possibilidade de serem escritos.
Em dias assim passa em algum lugar uma fila de insones... Para onde vão?
Aonde vamos?
(O olhar solitário solta-se no vazio, como a caçar símbolos que deixem palavras como vestígios, como de costume. Um vício sem respostas).
O vazio nunca revela nada, é esse o pacto com o inventivo. O princípio do sábio. No vazio por onde a vida anda, esse vazio da gente vai...


(“Dias em que os relógios nada podem” – Roberto Fernandes)



terça-feira, 9 de julho de 2013

QUE POSSA VIRAR POESIA...

                                                                             "Noite de Chuva" - foto: Roberto Fernandes







Tenho uma tarde nublada desaparecendo entre os ponteiros do relógio. E escrevo coisas que possam virar poesia de uma hora para outra.
A tarde que tenho é encantada por uma chuva.  No chão sonoro repouso os olhos cansados.
Um guarda chuva vermelho vai por lugares desconhecidos.  Isso me parece poético e real.
Enquanto se move o mundo, se essa chuva pudesse me levar...
Existem coisas nas quais nunca se deveria colocar nomes.
Exposto, desfeito, tenho o sentimento de virar poesia no final.


(“Que possa virar poesia” - Roberto Fernandes)