Aos poucos fui voltando da queda.
Enquanto nada em mim se movia, escrevia com os olhos
nas paredes.
Devagar fui saindo do hospital.
Deixando para trás horrores que nunca se escrevem.
Nas imediações de tudo o que me foi negado eu
plantava flores.
Furacões passavam na televisão - meus dias em frente
a uma tela fria se consumiam devagar.
Como os primeiros passos, um arrastar de dores que
ninguém via.
Eu era invisível então.
Tinha pouca força. Nem tampouco podia chorar.
Os vendavais batiam na janela, eu dormia por meses.
Devagar morri mais de cem vezes.
Aprendi a sangrar. Aprendi a ver anjos.
As marés sabem mais de mim do que a minha própria
sina.
Ao primeiro olhar de amor, depois de ter visto o
inferno, ergueu-se dentro de mim algo inominável - que nunca mais quero perder.
Peço a todos que me evitem suas desgraças. Não há
nada que não saiba...
Mas ainda sei sorrir do mesmo jeito que antes.
Essa, a minha vitória.
(Aos poucos voltei da queda – Roberto Fernandes)
fortíssimo, uma beleza.
ResponderExcluircada vez que leio gosto mais.
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